Diário de uma publicitária

Cuidado com o que você deseja

Consegui. No último texto conjuguei o verbo no imperativo. “Liga!” Mas no fundo eu não queria, eu não esperava, eu não acreditava mais. Eu me conformei e estava apenas vendendo minha dor como afago a qualquer pessoa que, por ventura, assim como eu, também veja beleza na dor.

Mas, para meu pavor, meu celular tocou naquela noite. E ver seu nome insistindo na tela foi como sentir voltas vertiginosas na minha cabeça.

Não. Não posso atender.

Eu devo atender, eu desejei tanto, eu provoquei. Eu vou.

Mas como é que eu posso confiar nele outra vez?

Sentia-me fraca e nauseada, eu tinha poucos segundos pra decidir entre atender ou não.

Cheguei a um estágio em que sei o quanto ele me machuca, e mesmo assim quero seguir em frente. Isso é péssimo! Atendi.

Ficamos os dois, ali, bem perto e estupidamente distantes, em silêncio profundo. Eu me encolhia na cama e me perguntava se parecia tão desesperada quanto realmente estava.

Não sei quantos segundos levou pra quebrar o silêncio com sua voz (como desejei isso), mas foi tempo suficiente pra achar que iria desmaiar, ter um ataque ou coisa parecida, mas quando ouvi sua voz, voltei a mim e vi que era tão real quanto como foi da última vez. Real e cruel.

Meu estômago dava voltas de excitação, porque sua voz tem o poder de me acalmar.  Mas minha consciência repetia: “Humilhação. Humilhação. Você implorou, ele voltou.” Repetia pra mim que você estava bem e sua felicidade se escorria no silêncio do que eu sentia. E eu sentia muito. Por mim e pelos meus sentimentos.

Voltei a experimentar esse misto de humilhação e excitação doentia. Sem conseguir me decidir se estava ou não contente com o seu telefonema.

Duas horas, dez minutos e dezoito segundos. Foi o tempo que você levou ao telefone, para destruir, naquela noite, tudo que eu vinha construindo. A distância entre você e o meu coração. Adoraria que fosse uma ponte, mas era apenas um muro. Um forte muro que evitasse que você soprasse e levasse minha estabilidade embora. Feito lobo mal que destrói a casa de palha dos três porquinhos. Resistência leviana a minha.

Passado o prazer em ouvir sua voz, veio a dor. Pra abafar e me sentir melhor, tentei pensar em uma coisa boa, mas a única coisa boa que me vem à cabeça é você. E eu me pego rodando em círculos. Sem entender como vou resolver meu problema, se ele, ainda, é a minha solução.

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2 pensamentos sobre “Cuidado com o que você deseja

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